Projetar para o Imprevisto: Lições da UIA 2020 sobre Arquitetura em Contextos de Crise
Photo: emergency architecture resilient modular structure disaster response community, via ifm.flagshipinc.com
A palavra "resiliência" tornou-se tão frequente no vocabulário do design contemporâneo que corre o risco de perder precisão. Na UIA 2020 Rio Expo, porém, o conceito ganhou contornos concretos e urgentes: ao longo de painéis, workshops e apresentações dedicados ao tema, profissionais de dezenas de países demonstraram que projetar para situações de emergência não é especialidade marginal — é, cada vez mais, competência central para qualquer arquiteto que pretenda atuar com relevância nas próximas décadas.
O Rio de Janeiro, cidade que conhece de perto as consequências de deslizamentos, enchentes e desigualdades estruturais, oferece um pano de fundo geograficamente e historicamente adequado para esse debate. Não por acaso, vários dos casos apresentados no congresso dialogam diretamente com a realidade carioca e brasileira.
Quando a Emergência Redefine o Programa
Um dos princípios mais recorrentes nas apresentações sobre arquitetura de crise é o da multifuncionalidade programática. Estruturas projetadas para funcionar como escolas em períodos de normalidade, mas que possam se converter rapidamente em abrigos temporários, centros de triagem médica ou pontos de distribuição de alimentos durante emergências, representam uma resposta inteligente à imprevisibilidade dos cenários contemporâneos.
Esse conceito foi ilustrado com precisão por um escritório com sede em Nairóbi, que apresentou um projeto desenvolvido para comunidades rurais no Quênia sujeitas a secas sazonais severas. O edifício — uma escola com capacidade para 200 alunos — foi concebido com sistemas de captação e armazenamento de água pluvial dimensionados não apenas para o uso cotidiano, mas para suprir as necessidades básicas de toda a comunidade durante períodos prolongados de estiagem. A estrutura modular permite, ainda, que alas inteiras sejam isoladas e reconfiguradas em enfermarias de campanha em caso de surtos epidemiológicos.
A Pandemia como Laboratório de Projeto
A crise sanitária global que marcou os anos recentes foi tema incontornável nas sessões da UIA 2020. Arquitetos de diferentes países apresentaram análises sobre como a pandemia expôs fragilidades do ambiente construído que vinham sendo ignoradas há décadas: ventilação insuficiente em edifícios institucionais, ausência de espaços de transição entre ambientes internos e externos, e a vulnerabilidade de habitações precárias diante de medidas de isolamento social.
Mas os relatos não se limitaram ao diagnóstico. Escritórios da Itália, do Japão e da Argentina trouxeram ao congresso soluções desenvolvidas em resposta direta à pandemia — desde sistemas de particionamento temporário em hospitais até a reconversão de hotéis e centros de convenções em estruturas de suporte à saúde pública. Essas experiências, documentadas com rigor técnico, constituem um repertório valioso para profissionais que precisam desenvolver protocolos de resposta rápida para suas cidades.
No Brasil, o contexto é particularmente relevante. A pandemia revelou com crueldade a inadequação das habitações precárias nas periferias das grandes metrópoles para abrigar famílias em isolamento prolongado. Arquitetos brasileiros presentes na UIA 2020 apresentaram propostas de adaptação de espaços comunitários em favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo, transformando quadras esportivas e centros comunitários em estruturas capazes de oferecer suporte básico a moradores impossibilitados de se isolar em seus domicílios.
Materiais, Velocidade e Reversibilidade
A dimensão técnica da arquitetura de emergência foi examinada em profundidade durante um workshop prático realizado na UIA 2020, com foco em sistemas construtivos que combinam rapidez de montagem, baixo custo e possibilidade de desmontagem e reutilização dos materiais.
Entre as tecnologias apresentadas, destacaram-se estruturas em bambu laminado desenvolvidas por pesquisadores colombianos, painéis de fibra de coco produzidos por uma startup brasileira sediada em Belém, e sistemas de contêineres modulares adaptados por um escritório holandês para uso em campos de refugiados na Europa e no Oriente Médio. Em todos os casos, a reversibilidade foi apresentada como valor tanto ambiental quanto econômico: estruturas que podem ser desmontadas e realocadas não apenas reduzem o desperdício de materiais, mas permitem que o investimento inicial seja multiplicado ao longo de diferentes ciclos de uso.
Governança e Arquitetura: Uma Parceria Necessária
Um tema que perpassou praticamente todas as sessões dedicadas à arquitetura de crise foi a relação entre o projeto e as estruturas de governança que determinam sua implementação. Vários palestrantes argumentaram que as melhores soluções técnicas frequentemente fracassam não por deficiências projetuais, mas por falta de articulação com políticas públicas, ausência de mecanismos de financiamento adequados ou resistência institucional à inovação.
Essa perspectiva trouxe ao debate da UIA 2020 uma dimensão que vai além da prancheta: a do arquiteto como interlocutor político e agente de advocacy. Profissionais que atuam em contextos de emergência relataram que parte significativa de seu trabalho consiste em convencer gestores públicos, organismos internacionais e comunidades locais da viabilidade e da urgência das soluções propostas — habilidade que raramente é ensinada nas faculdades de arquitetura, mas que se revela indispensável na prática.
Preparação como Ética Profissional
Ao encerrar suas reflexões sobre o tema, vários dos especialistas presentes na UIA 2020 convergiram para uma conclusão que pode soar simples, mas carrega peso considerável: a arquitetura de emergência não começa quando a crise já chegou. Ela começa no momento do projeto, na decisão de incluir flexibilidade, redundância e capacidade de adaptação como premissas fundamentais — e não como itens opcionais a serem cortados quando o orçamento aperta.
Para os profissionais que participam do congresso no Rio de Janeiro, essa mensagem chega carregada de responsabilidade. O Brasil é um país de contrastes climáticos, sociais e territoriais imensos, e suas cidades convivem cotidianamente com formas variadas de emergência. Incorporar a resiliência como linguagem projetual não é, portanto, tendência importada — é resposta necessária a uma realidade que já está aqui.